quinta-feira, 17 de abril de 2014

Coito e ruídos escondidos.


Foto da net.

-Enfia vai! Ahhh...
-Hummm... Vem!

-Vira agora!
-Grummm...

-Xiiiiiiiiiiiiiii!
-Ai amor, esfrega mais vai. Hum...

(Roc roc roc roc).
Os pés da cama arranhavam no chão enquanto ele impulsionava seu corpo sobre o meu, fazendo um barulhinho indecente em volume mediano.  (Vrummvrum) O ventilador virado para a parede e a televisão ficavam ligados em volume baixo para disfarçar os gemidos incontroláveis.

Minha anca empinava-se, meio quebrada, ansiosa, aguardando em posição de defesa. De jeito a propiciá-lo o movimento de remo, lento.
Sussurros ao pé do ouvido. Lambidas na nuca. Leves mordidas. Tesão.

Indiscretos e sem pudor, abusamos da liberdade do fogo. Ardendo, dentro um do outro. Mastigando, vasculhando os dedos, língua, pele, suor, misturando com aspereza e devassidão. Entrando e saindo. Calmos e epiléticos. Maldosos, trocando pés pelas mãos em conversas sem versos, sem nexo. Cheia de prazer. 
Rápidos e lentos. 

Me enche de poder enquanto me cheira, me abraça e beija-me todo o dorso. 
Me enche de força ao sucumbir-se por entre meus grandes lábios. 
Me enche de tesão o macho alinhado, tensionado sobre mim.

Puxava-me os cabelos com uma mão e com a outra acariciava-me o clitóris. Aplaudia-me por entre as pernas. Me incendiava. Me puxava selvagemente. Me fazendo babar compulsivamente.

O barulho é abafado entre lençóis.

Entre carnes o atrito. Escorre o calor. Escorrega, suspira, espera. 
Minhas pernas enlaçavam-se por trás dos tornozelos dele. Segurava-o. 

... três segundos para o auge e...

Às oito horas da manhã.

(Toc toc toc)  - Filha.... acorda! Preciso da tua ajuda aqui.

( Puta que pariu! ) Pensamentos conjuntos.

- Já vou mãe! - Voz ativa e espirituosamente acordada.

Espirra apressadamente a porra toda. Zonzo e suado, sai de dentro de mim, já amolecido e assustado!

É como um banho gelado, que deixa a gente mofino, estagnado, apreensivo... 

( Será que ela escutou? )






terça-feira, 15 de abril de 2014

Toque.


É na ponta dos dedos que eu agarro os teus pensamentos. 
Cheiro, provo, desejo, 
trago-te!



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Amanda Ribeiro.




                                                                                                   
À minha queridona.

Dia 15 de abril poderia ser um dia bem especial. Daqueles que eu te ligaria pra te dizer que eu tenho saudades das nossas tardes na universidade, daqueles cafés com tapioca que rolavam lá no nosso kit-net, das fofocas que nos faziam rir muito, daqueles almoços improvisados por ti, pela tua mãe, pelo Mário e pelos teus irmãos lindos Aldo e Aldy, ah... Eu te ligaria e talvez marcaríamos alguma coisa pro meu aniversário que é daqui a quinze dias, então eu beberia a minha cerveja e tu, um suco. Falaríamos de coisas felizes, planos e experiencias de profissão.

Poderia ser um dia comum até, um dia qualquer. Eu e muita gente gostaríamos. Seria um dia de reencontros e sorrisos, mas não é. Esse 15 de abril relembra um dos momentos mais infelizes da minha vida, me traz uma ferida mal cicatrizada, chorosa e cheia de dor. É um dia que ninguém quer ter, muito menos relembrar.  Poderia ter sido apagado do calendário e das nossas vidas.

Há exatos quatro anos que já não estás mais presente, não do jeito que eu gostaria, entretanto o teu lugar aqui na terra é sempre guardado com muito carinho e cuidado, e até mesmo as pessoas que não te conheceram pessoalmente sabem o ser maravilhoso que fostes, só por falarmos de ti e dos momentos bons que passamos ao teu lado. Cada um de nós fomos felizes por ter convivido contigo, saiba disso.

O tempo por aqui têm passado depressa, mas tenho a sensação de que parece pouco tempo, pois a tua ausência ainda é latente e angustia. A tua falta será sempre uma cicatriz aparente que não pára de doer e te sinto por perto, de alguma forma. É como se fôssemos nos encontrar a qualquer momento na rua.

Sempre penso em como seria se estivesses por aqui; o que farias, como estarias, o que falarias... Sempre penso em ti, Amanda. Foste umas das grandes responsáveis por me tornar o que sou hoje. Sem saber, me entregaste a responsabilidade e a força para eu continuar estudando até me formar em letras, porque era um sonho mais teu do que meu.

Quando penso nesse dia, ainda é difícil entender, aceitar, acreditar que tu foste daqui. Por quê? Por quê tu?

Sabes que eu nunca fui religiosa e implicavas muito por causa disso. É que na minha cabeça não é claro que alguém tão cheia de saúde e tão jovem pôde ir embora da terra e simplesmente não voltar mais. Foi um pedaço arrancado sem pedir licença mudando toda uma rotina, destruindo expectativas, descontrolando os passos, perturbando. Eu jamais vou entender.

A tua falta é visceral e as lembranças de ti são essenciais para que a vida por aqui prossiga. A saudade tem apertado tanto o peito e é difícil lembrar de tudo isso sem derramar uma lágrima. Talvez, algum dia eu consiga.

Mas hoje não quero lamentar. Quero agradecer por eu ter tido a oportunidade de aprender em tão pouco tempo contigo! Te agradeço infinitamente por tudo. Por ter feito parte dos meus aprendizados em Vigia, das minhas angústias e alegrias. Dos meus pensamentos  e objetivos malucos. Por fazer parte hoje e sempre do meu ofício e obrigações em sala de aula. Obrigada pelo tempo que passamos juntas, tu me ensinaste tanta coisa bonita. Obrigada pelo carinho, pela compreensão, pela ajuda de sempre, pelas palavras tão cheias de amor e compaixão. Obrigada pelas conversas sinceras, pelos dias de trabalhos cansativos. Obrigada por teres aberto a porta da tua casa, da tua família, do teu coração. Obrigada por sempre fazer parte da minha vida.

E perdão querida , mas ainda não sei guardar as lágrimas enquanto falo de ti.

Um beijo bem forte e apareça sempre que puderes.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Lá, o céu encanta


Xingu, outubro / 2013.

Canta o Rio que encanta,
O céu que faz o mundo parar.

Só sabe quem enxergou as belezas de lá.

As cores se confundem, se iludem no horizonte
consolando pensamentos vazios
que faz até chorar.

Mas é o Xingu que ajuda a calar,
o coração.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Sobre utilizar o tempo livre.




Guardo no bolso os trapos soltos, jogados no lixo.
Escolho,
crio, refaço...
Emendo os pensamentos jogados pelo quarto.

Faço, desfaço medidas 
corto e costuro.
Surge a poesia.

Dos trapos, 
surgem bolsas, roupas, cabelo de boneca...
Dos bolsos, 
saem recortes de poesia.

A máquina de costura
é mágica.
Realinha meu tempo.
E me faz pensar.


Post Scriptum: Reutilizando materiais e renovando a criatividade e estilo. 


sexta-feira, 21 de março de 2014

Tenho fome.


Senti um desejo ácido
de poesia crua
acompanhada de um bom vinho ou cerveja gelada.

Fui procurar...

Achei um caminho de versos fritos,
Não deu outra, devorei!
Saciei o desejo, mas a fome de poesia...
continua latente.


quinta-feira, 20 de março de 2014

quarta-feira, 19 de março de 2014

Tenho comigo aqueles desentendimentos internos.

Me acompanham na dor e no amor aquelas vielas sórdidas cuspidas pela vida. Estão vestidas de desejos e caminhos.Aparecem assim como um tal de querer e não querer que faz a mente parar e não pensar. São pensamentos  difusos que deixam a cabeça borbulhante que sacode em um desvairismo atordoado sem direção. O tempo parece dar um tempo,mas logo volta apressado.

Será que os sonhos deixam a gente assim?Ou é só uma fase da vida sem sonhos?
Chego a perder os passos e perder o caminho. Tropeço, caio adiante e levanto. Tomo jeito. Não recuo e sigo.Manco um pouco e me arrasto para o próximo passo infalso para explorar o ambiente desconhecido.

Talvez seja hora de virar a página. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Sem eira nem beira, mas com carteira.

Das muitas coisas que eu desejava desde pequena, hoje consegui uma delas. Passei no exame de direção e consegui a minha tão suada carteira de habilitação. \o/ Finalmente!
É que meu pai sempre me prometeu que quando eu atingisse 18 anos ele me daria a carteira. E eu , sempre sonhei com esse dia. Mas ele sempre deixava pra lá, ou por causa da grana ou por medo, talvez. (Ele pensa que eu vou enlouquecer, beber todas e dirigir.) Eu não sou louca né gente?! Ainda tenho amor à minha vida. Mas tudo bem,hoje aos 26 anos pude concretizar meu desejo. 
Estagiei em duas escolas nos anos de 2011 e 2012 , guardei o suado dinheirinho para esta bendita habilitação. Tive alguns problemas. Usei uma parte da grana, mas ano passado pude pagar e fazer as aulas. Só que com a minha mudança para Altamira, não rolou naquele momento.
Hoje, antes de ligar o carro na hora do exame, pensei forte : "Eu quero, eu vou conseguir." E consegui! Me enrolei um pouco na hora de estacionar, fiquei nervosa, mas ao contrário do que muitas pessoas pensam, não precisei pagar para passar no exame. E eu nem pagaria. (Acho um abuso , inclusive. ) O examinador foi até gentil. Falava o que eu devia fazer, o que me tranquilizou. Posso ter tido sorte ou ele viu que eu não tinha cara nem jeito de ryca. haha

***

A gente acha às vezes que certas coisas estão tão distantes da gente né?! Podem até estar, mas se a gente não se movimentar e correr atrás daquilo , as coisas vão estar distantes e vão ficar mais longe ainda. 
Minha vida não está lá essas coisas também. Desempregada, sem indicações, poucas oportunidades... mas se eu não for atrás, ninguém mais poderá ir por mim, ora!

***

Essa semana, fui à duas entrevistas de emprego. Fiquei muito nervosa , mas enfrentei. Fui de garras afiadas para não deixar o nervosismo aparecer. Me camuflei de menininha e mostrei que eu podia fazer qualquer coisa. Acho que convenci. Agora estou a aguardar os telefonemas. 

*** 

Essa semana também, um poeta querido, Cláudio Cardoso me ligou para pedir meu e-mail, (já que eu desativei o facebook isso é história para outros papos de boteco ) para mandar-me o convite para participação em um livro de crônicas para comemoração dos 400 anos da cidade de Belém que ele está projetando. Serão 20 escritores, entre eles 10 conhecidos e 10 desconhecidos. E eu aceitei. CLARO!. Olha que lindeza!

***

Hoje, o outro anjinho felino que estava abandonado por aqui pela rua de casa, apareceu pra mim. E não deu outra, eu peguei. Abriguei , dei leitinho, comida, manta quentinha e o meu coração. Agora tô aqui, uma mãe que não cansa de olhar as crias.

***

Ah, tive outra notícia boa hoje. Meu namorado conseguiu uma vaga pelo sisu na UFRA, no curso de Licenciatura em Computação. Depois de algumas tentativas em cursinhos e provas de enem etc. Ele não desistiu , correu contra o tempo para chegar na Universidade hoje, driblou o engarrafamento , lutou para que nenhuma documentação faltasse e conseguiu a vaga.

 Veja bem se não tenho motivos para comemorar hein?

Um(as) cervejas, por favor! =]

sábado, 8 de março de 2014

Sonhei com um anjo, e o anjo apareceu.

Essa noite sonhei que alguém me oferecia gatos. Eram três bichanos e todos adultos, estavam dentro de um saco grande, que por sinal, achei uma judiação os felinos estarem alí, espremidos. Todos muito lindos. 
Mesmo sabendo que minha mãe não aceitaria, no sonho eu pegava um, mas querendo pegar todos. Ele era rajado e cinza, e estranhamente parecia um siamês.
O engraçado é que todas as vezes que sonho com gatos (que não são tantas vezes assim), eu tenho o costume de jogar no bicho e sempre dá gato na cabeça, mas eu nunca ganhei pelo motivo de nunca jogar nos horários certos. Geralmente jogava em um jogo das 11h para concorrer , mas só dava gato na cabeça no jogo das 14h ou 17h. Uó!
Mas sim, voltando ao sonho, só lembro dessa parte.
Quando acordei de manhã, enquanto tomava café, meu pai veio e disse que tinham dois gatinhos abandonados no campo que tem na esquina de casa. Logo comentei do meu sonho e uma vontadezinha de ir lá vê-los.
Terminei o café e tomei um banho para em seguida fazer uma aula de direção no carro com meu pai. Quando terminou a aula, entrei em casa e do meu quarto comecei a ouvir os miados desesperados de gatinho pequeno. Não deu outra, abri o portão e  fui atrás dos miados. Passando uma casa depois da minha, achei o pequeno abandonado, que deve ter lá pelos três meses. O bichinho tava tão assustado, correu me driblou mas eu consegui encurralar ele no muro e peguei. Ele é branquinho com umas manchas rajadas pelo corpo. Procurei o outro órfão que meu pai havia falado, mas não o encontrei. 
Não tive outra reação a não ser levar o anjinho pra casa avisando à minha mãe:

-Olha o que eu encontreeeeeeeeeei!
- O quê?? Tu não encontraste sua moleca. Tu foste foi buscar ISSO!

Eu, enquanto amante de animais e de gatos não ia deixar o pequeno , depois de ter sonhado com ele, na rua  né?!
Agora ele tá aqui, fazendo companhia, dividindo a cama comigo e  me divertindo. 

P.S: Depois posto uma fotinho dele aqui.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Lamentações e blah blah blah...

Sabe quando as coisas estão uma merda só? Nada funciona!
E não não há bebidas, cigarro, rock and roll, cinema, compras desnecessárias ou companhia que dê um jeito na minha mente quando tenho que ficar sozinha. Nada do que eu faça consegue limpar os pensamentos que invadem minha cabeça na hora de dormir, na hora de acordar ou na hora em que eu tenho que viver. Porque, né, a gente tem que viver 24 horas por dia mesmo... Não é bem o que eu quero, mas é o que tem pra hoje. Até pra escrever tenho andado infértil. Não tá fácil. 
Desemprego tá me deixando muito deprê. Não tenho ânimo pra quase nada.

Pra piorar tô em um momento estúpido de TPM em que a feição já não é das melhores e nessa fase é triste. Aí meu namorado fica tentando me animar. Um amor, mas coitado. Acabo cagando na cabeça dele. Não tem nada a ver, o pobre. Só dou aquele beijo bem rápido, seco, sem língua. E ele meio sem graça, sem entender nada e sem saber se fez alguma coisa errada , ainda me pergunta: Tá tudo bem? A resposta é simples e seca: Tá!


Não satisfeito, ele ainda tem coragem de emendar um 'Tem certeza?, que é respondido mais friamente com um rosnado baixo e cavernoso 'teenhoo.'. Aí, como ele é um fofo, consegue perceber que eu não tô muito a fim de papo, me deixa quieta e fica no computador conversando com umas menininhas amigas dele , pelo facebook . ( O que me faz me matar mais ainda, por dentro.)


Desnorteado, ele pede o pinico e sai. Tenta dar um beijinho de boa noite e quase leva uma mordida. 

Tadinho. Isso é PROVA DE AMOR,  viu?!

Enfim, é melhor mesmo EU FICAR NA MERDA UM POUQUINHO, porra! Acho necessário. Eu sou uma cagona!
Não dá pra viver o tempo todo feliz mesmo né? 



"Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras coisas."
-

Recortes.

Ontem passamos a tarde, eu e meu namorado, fazendo um quadro novo para o meu quarto. Na verdade, refazendo o quadro que eu já tinha feito com fotos de revistas variadas há uns três anos atrás mais ou menos. Mas dessa vez, as fotos eram de um livro só que ganhamos. Imagens lindas e que pensamos logo em aproveitar para deixarmos aqueles recortes à vista, para que nós e nossas visitas pudéssemos contemplar, porque afinal de contas, um livro como aquele, não poderia ficar escondido em um canto qualquer da estante, empoeirado. 
Com aquele reaproveitamento, algumas coisas imediatamente modificaram. Seja a nova vista, seja nossas ideias e o nosso prazer em modificar coisas pequenas do nosso dia-dia. Novas fotografias , outros rostos recortados prontos para enfeitarem a parede e nossos sonhos. Acredito que a vida seja feita de recortes, cheia de pessoas encantadoras, fatos especiais, imagens que nunca serão esquecidas, boas, ruins, surpreendentes, fatos curiosos... 
Para o quadro, escolhemos imagens lindas e perfeitas, mas não sabemos nada sobre aquelas pessoas a absolutamente nada. Não sabemos de suas origens, de seus conceitos, de suas famílias e histórias de vida. E ainda sim iluminaram nossa vontade de mudança.Na vida, volta e meia nos encontramos com "recortes" variados. Recortes de pessoas significantes ou não. Algumas passam sem tocar em nós, outras tocam apenas com uma palavra.
Certa vez, um vendedor de bombons em um coletivo por Belém , perguntou minha idade. Na época, eu tinha vinte e três. O vendedor então, disse-me que se nessa idade eu havia tido felicidades, nos meus 2 vinte e quatro iriam redobrar. Fiquei feliz, porque ele nem me conhecia e eu nunca o tinha visto, e ainda sim desejou-me tão bem assim. Mas eu pergunto, precisa conhecer alguém pra desejar o bem?!
Mas alguns desses "recortes" humanos vão embora de nossas vidas, às vezes por necessidades, às vezes por situações desconfortáveis, por vontade própria ou não. São inúmeros os motivos. Infinitos os argumentos que cada um de nós temos diante de nossas próprias convicções. Os caminhos variados nos levam ao afastamento daquele grupo de amigos de uma época descompromissada juvenil e que parecia só importar os amigos.
A cada novo quadro, a cada nova aproximação, colagem, amizades, o amadurecimento humano tende a melhorar. Sempre é hora de mudar para melhor convivência, melhorando relacionamentos. Mas não é motivo para jogar fora o quadro antigo. A armação para sustentar as fotografias ainda está alí, na parede do meu quarto.
Cada um de nós temos um quadro que modifica a cada momento na vida. Seja por nossas escolhas ou não.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Acidez.

Retrato http://www.lupompoar.com.br/


Madrugada adormece e viajamos colados. 
Nus. Aprisionados. Como um só elemento de desejo.

Desperta-me com um beijo na nuca , apalpa-me o dorso, as coxas, desliza sobre mim sua fome e peso dos sonhos sujos. Eleva minhas mãos entontecidas a rastejar-lhe a pele quente entre pêlos avulsos, arrepiados, o falo ofegante que escuma.
Abre minhas pernas sutilmente,  arrastando os dedos macios topando meu tecido, encontrando cicatrizes, algumas novas ou antes nunca percebidas, vasculhando calmamente como quem procura um grão de areia qualquer, ao acaso.
Examinamos nossos corpos de olhos ainda fechados. Os murmúrios apetecidos aparecem. Um desespero contido inicia. Posiciona-me aos poucos a sua frente. Ilumina-me ponto a ponto com mordiscadas leves descendo a anca , tracejando com o palato o caminho molhado até a vulva. Desfila as cerdas que eriçam os orifícios urinário e genital, almejando meu suco. Não se contentando em me ver gemer em desespero, endurece a língua e cutucando meu clitóris em movimentos circulares abre-me os grandes lábios e chupa com voracidade. Apóia suas mãos aos meus quadris, eleva-me as pernas flexionadas sobre seus ombros enquanto me tortura com as lambidas e chupadas incansavelmente purificadoras e relaxantes, fazendo sair um calor que me faz lagrimar, retorcendo meus músculos com força, involuntariamente agarrando ele a mim. Devorou e irritou o clitóris até inchar levando-me às alturas, enfiou mais um pouco a língua no canal vaginal me fazendo conhecer e reconhecendo o ponto G, com a acidez daquela saliva que me obrigava a implorar para que não parasse até que a respiração ofegante, cansada, desesperada, anunciou... o sul de lugar nenhum. Meu orgasmo.Agora todo em sua boca. Meu sorriso.
Me consome completa. Me deixa sem fala, sem fôlego cheia de felicidade. Deliciada. Desejada. Mulher.
Ele é o meu deus, na cama e nos pensamentos. Sabe dos meus caminhos, dos meus anseios, da minha porta de entrada. Entra com elegância e cuidado. Ama a mim e meu clitóris. Resfria e aquece meu interior com beijos.
Teimo que a paixão é alimento que surge dessa massa, entre as pernas ou através de um abraço. Ultrapassa sensações, transcende o universo, o espaço e o tempo, enquanto deslizamos o olor dos corpos um no outro, sentido a carne, o sabor ousado encontrado por tantas outras vezes entre nós e não menos atormentante. 
A fé, a sede, os nervos saciam corpos alcançando a leveza dos mares.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Já não tenho tempo.



"Contei meus anos e descobri
Que terei menos tempo para viver do que já tive até agora
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de jabuticabas
As primeiras, ele chupou displicentemente
Mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades
Inquieto-me com os invejosos tentando destruir quem eles admiram
Cobiçando seus lugares, talento e sorte
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas
As pessoas não debatem conteúdo, apenas rótulos
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos
Quero a essência.... Minha alma tem pressa....
Sem muitas jabuticabas na bacia
Quero viver ao lado de gente humana...muito humana...
Que não foge de sua mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade."

Rubem Alves

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Desconhecem-se de si quando se amam.


Retrato da net.


Perdi o ar. Congelei e aqueci. Estive petrificada alí no meio do salão enquanto ele me devorava com os olhos. Ponto a ponto do meu ser. 
Eu estava com um vestido colado, avantajando minhas formas, um perfume adocicado e um batom chamativo. Ele vestia-se de uma camisa branca, calça jeans e cheirava a cerveja.
Enquanto desviei o olhar, me fitava o decote e o dorso.
Aproximávamos aos poucos.

De olhos fitados, pediu-me o cigarro e eu a bebida avermelhada de gosto amargo excitante. 
Trocamos duas palavras e pedi-lhe o beijo. 
Não recusou. 

Agarrou-me vorazmente os quadris, apertando e me trancando. Não deixou-me qualquer valor de fuga.
Éramos dois seres famintos no meio daquela festa negra e maluca.
Em meio ao furdunço alucinante, ópio, luzes, som... meu querer era ser beijada, uma intensa vontade em ser lambida e com movimentos rápidos ser chupada , tocada, e vasculhada.

Desde o ínício da festa, ansiei aquele animal endurecido sobre mim. Me desejando , me degustando, me posicionando...

Sussurrou apressado que me queria só pra ele e me puxou para uma galpão, por alí escondido.
Apalpou-me o dorso, as coxas, mordiscou minha nuca, enquanto o falo engrossava desesperado embaixo da calça. Não demorou a abrir o zíper e declarar o monstro sedento, pulsante almejando o prazer. 

Deslizou a língua quente em meus seios opimos, estremecendo o corpo todo. Desceu, arrancando-me o vestido, aplaudindo meu desvairismo. O arrebatamento nos tomou por completo. Encurralou-me nas paredes, provou do meu suor. Experimentei aqueles lábios macios e viris. Debrucei minha boca sobre o pênis latejante e angustiado. Movimentamos nossos corpos, ambições e loucura. Compartilhamos saliva em beijos insaciáveis, nas águas diamante do verbo amar.

Me pôs no colo , escorou-me às paredes e adentrou em mim, e naqueles deslizes de vais e vens, entre entulhos , pó obscuro inapropriado que mesmo no chão, nos fizeram amantes indispensáveis. Inebriados da droga da paixão, grudados na saliva e no suor , no gozo que horripila e fascina. Em abraços que apavoram e deixam em transe.

O cio.
Felação. 
Coito. 

Dois estranhos completos na calada da noite.
Felizes e alimentados. Completos de si. 

Amanhece o dia, a festa acaba e caminham juntos conversando sobre suas vidas e suas histórias desconhecidas.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Instabilidade.

    Rio Xingu. Novembro / 2013.



Acordei meio nublada. Com aquelas nuvens de grande extensão e base difusa formadas por gotículas de chuvas, cristais e flocos de gelo. 
O céu amedronta, parece com raiva, cheio de tudo, com uma massa de ar frio vindo dos litorais mais longínquos. 

Lembranças que não cessam.
Amores do passado. 
Sorrisos.
De um tempo feliz.
A chuva cai e tudo faz sentido.

Deságuo.
Trovejo o som das lembranças da vida mansa, passada.
O corpo emudece.
Inunda a rua, alaga a casa, afunda os pensamentos.
Traz a saudade pra molhar o coração.
Dissolve a voz.
Dissolve a luz.
Dissolve assim...
a mim.

A chuva cai e tudo faz sentido. 

Olha lá.



Nuvens negras trazendo uma chuva de notícias boas.

Só o tempo pra acalmar o coração e diminuir as dores das [antíteses] que a vida tem.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O jogo.




Foto da net.


Meu corpo é o gramado e a trave.
Ele é jogador. O único. Artilheiro renomado, galã e casado.
Não há substituição.
A partida é de um só tempo, sem parar.
Aqui, o jogo é vestido de nudez onde retiramos o pudor.
É um jogo de emoção e perigoso.

Ele joga com as mãos e os pés o impulsiona. Me toma nos braços com paixão ao futebol, com sede ao gramado, esperando meu ataque e minha defesa. Sem me jogar pra escanteio, numa formação e sabedoria de técnico e simultaneamente jogador e treinador, me arremessa na cama e sorri, com as jogadas pensadas na cabeça. Desenha  e prepara o campo com beijos suaves, arrastando a língua quente, experimentando o gramado. 

A partida começa e a bola já se perde entre beijos, entre línguas e saliva, desejando a trave.  Ele ultrapassa a linha que divide o gramado e trabalha pela meia esquerda de meu corpo, pertinho do bico da grande área, nos seios. Chupa, lambe, me acende inteira, sem recuo da área. Estamos num empate.

Me gira de bruços e inverte a jogada de cima pra baixo, passeia os lábios doces ao longo da minha coluna. Mordisca minha nuca e já domina partindo pra cima da marcação aumentando a pressão dos dentes sobre minha pele. Arriscou o levantamento das minhas pernas, apoiou sobre travesseiros o meu ventre. Com as mãos, massageou minhas coxas, examinou minha carne, acariciou meu dorso.Com a língua, experimentou minhas lágrimas esvaídas do íntimo.
O coração bate acelerado. Quase falta ar. Corpos quentes, suados e colados.  Estendidos, um sobre o outro, preparou-se para o golaço de placa, num ritmo frenético e palpitante daquele falo transvestido de vênus, disseminando meu suco e aumentando a adrenalina. Avançou pelo meio lentamente. Sem adversários,  brincava com a cabeça daquele membro elegante, entrando e saindo da trave. Vai e volta. Levanta e desce. De ponta cabeça me revira e me vasculha. Me deixa perdida. Sussurra que me quer e me agarra.Atravancando entre suas pernas minha anca, recua calmamente e avança para o GOL, para dentro do gol.

Nos abraçamos em um desespero animal. Eclodimos numa ejaculação assustadora e entorpecente.
Gozamos juntos, destilando nossas almas, nossos corpos, em uma única trave.

Ouvimos os fogos de artifício, euforia, bandeiras, fumaça colorida, balões, nervosismo.  Sentimos a camisa no peito, a pintura no rosto, o grito solto no ar, coração na mão a cada passe. Espetáculo de primeira grandeza.  Naquele momento, corpos explodindo em minutos entusiásticos de emoção, cheguei a seguinte conclusão: entendi a sensação de ouvir um gol em campo e que existem pessoas realmente apaixonadas por futebol. 
Não importa o time. Não há perdedores. Há quem aproveite dos momentos de emoção e goze.

Tem coisa melhor do que o nosso futebol?




Sobre o tempo.


As filhinhas.



Uma delas (o trevo), atrás aí na foto, vai de presente lá pros rumos do Xingu, pra Ressaca. A outra , a Cacá, tem me feito companhia dia e noite. Não paro de olhar pra ela, pelo simples fato de ser bebê e se tratar de uma planta carnívora. Ela é super delicada e precisa estar ter os cuidados de um bebê , com o solzinho da manhã e tudo. E ao contrário do que a galera acha, ela não come gente tá?!
 Ela libera um néctar pelos "mãos" que atraem mosquitos. Mãos delicadinhas que abrem e fecham ao posar um inseto.
Tenho andado meio caduca com elas. Mas qual o problema?  *__*

E fazendo umas pesquisas a mais sobre as plantas carnívoras, a minha Cacá é desse jeitinho aí em cima.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Confissões de boteco I.

O álcool entra, confissões saem...

Na madrugada de um dia qualquer, esperando um maldito transporte para voltar para casa, eu e meu amigo sentamos em um botequinho e pedimos uma cerveja, só pra passar o tempo. Afinal eram 3:20h e certamente esperaríamos algumas horinhas a mais até passar o busão.
Viemos de alguma festa pobre, em que acabara a bebida e eu havia recebido uma bonita vomitada em meus pés , além de estar toda banhada de vinho por dentro e por fora desta minha carcaça festeira.
Sentamos nos banquinho e pedimos uma breja. O dono da bodega puxou logo assunto. Dizia ele, com um sotaque meio nordestino, bem engraçado:

 - Como é a vida né? A gente nasce, trabalha feito cão pra tentar pôr comida em casa pra muié e pros fíos e não consegue muita coisa da vida. Agora espia essas putas da BR. São estragadinhas , feínhas, mas se divertem, gozam com o que mais mexe com a cabeça do ser humano: sexo. E ainda ganham dinheiro pra isso.

Achamos interessante o assunto comentado e Meu amigo começou a soltar suas pérolas:

 - "Eu já chupei muita boceta de festa."

- Hã? Como assim, o que é boceta de festa? disse o velho nordestino.

Aquelas sabe... suada, foguenta, meio salgadinha, e fácil fácil fácil?! Pois é.

- Ah sim. Sei sim. Já peguei também.

Meu amigo continuou:

 - Eu também já peguei boceta de ouro.


-Hã? Como é essa boceta?


- Ah, é aquelas bocetinhas guardadas a sete chaves até uma idade avançada. E quando a bocetinha conhece um pau duro, parece que achou a chave do cofre... RÚM... a bichinha deita , rola e rebola. Não sei porque guarda tanto tempo.


-Ah sim. Já peguei uma dessa também.


E meu amigo, percebendo que o velho confirmava que havia feito as mesmas coisas que meu amigo, então resolveu testar o velho potoqueiro, e disse:

Olha deixa eu lhe falar, adoro boceta salgada, doce, azeda , grande, roxa, loira, pelada, peluda, de todo jeito já comi, mas eu não dispenso um cu e uma rola.

E o velho assustado com os olhos arregalados:

- HAHAHAHAHA, Pô cara, gostei de vocês olha, acho que nos daríamos bem. Mas vem cá, quem de vocês aceita um quarto de motel agora?!


[...]




A vida sem sal.



A vida tem andado tão parada. Tão monótona e tão cheia de responsabilidades. Tenho sentido falta de poesia, da minha poesia , da poesia que a vida tem.
É que eu comecei a fazer cursinho pra concurso, mais especifico do Banco do Brasil, e já esperando o concurso da seduc. Na sala, tem umas duzentas pessoas. E todo mundo muito afim de passar, claro. 
( Chegam a te olhar com uma cara de maníacos como concorrentes.) heheehe
Mas é que foi um pouco estranho voltar a uma sala de cursinho, depois de quatro anos dentro de uma universidade. Me senti um pouco enferrujada e assustada com assuntos específicos bancários e os assuntos matemáticos.
Algumas daquelas fórmulas vieram à mente e imediatamente os tempos de cursinho, em que a única responsabilidade era estudar para passar no vestibular.
Vieram à mente os amigos daquela época, que inclusive alguns, perduram até hoje. É gostoso lembrar daquele tempo, daquela rotina e daquela idade. É bom relembrar aquele tempo feliz. Um tempo juvenil. Um tempo que eu queria voltar.  Um tempo que eu sorria que maior facilidade. 

No retrato, uma intervenção urbana que participei do trabalho da minhã irmã, representando a Pietà, como estátuas vivas, eu e o Andy- novembro , 2007.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Uma mudança.



Achei hoje , na sujeira do meu quarto, a mudança.
Transbordava dos olhos, um fogo. Um calor.
Recendia da janela a sorte. Queimava o incenso dormido.

Era a vida que alinhava uma nova direção!

Talvez...



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Um golpe de luz.



Foi como um gole sedento, macio rasgando a carne. Ou como o mar que me descobria, percorrendo minhas formas. Iluminando meu caminho.

Viu-me estirada na cama de bruços, com a camisola fina e sem calcinha. Debruçou-se manso ao meu lado, devagarinho. Os dedos passearam pelos meus pés, beijos arrastados e melados sob minhas coxas, rastejou a língua por entre minhas dobras do glúteo eriçando meus seios, acordando meus sentidos. Permaneci imóvel de olhos fechados sentindo o fogo renascer.
Levantou aos poucos a camisola de linho, pôs-se a mordiscar o dorso todo, costas, nuca...

O sol já raiava o dia, o calor aumentava, meu sexo suado palpitava. Nossos corpos mudos preparavam-se para planar sobre lençóis em outro plano. Estamos apenas começando, apenas aquecendo.

Virou-me de frente, escorregando a boca em meu ventre e barriga, estacionando em uma sucção sob os brincos dos meus mamilos. Subiu ao pescoço, prendendo seus lábios aos meus. Nossas línguas dançaram juntas, ferventes, coladas uma a outra.

Era aquele jeito dele calmo que me fazia sentir o mundo, o roçar de pernas nas minhas antecoxas, aqueles braços ávidos envoltos a mim, protegendo, amando, explorando minhas entranhas.  Trancava-me e mordia. Trepidava e me chupava.
Me consumia, me bebia, me fumava, me dissecava, me abria.

Minhas pernas malinas prenderam seu tronco ao meu. Espremi com todo meu ser a ele. E antes que se instalasse em mim, volveu minha carne apoiando-me a dois travesseiros macios sob meus quadris, enquanto reclinei-me e pus a acariciar seu pênis, na medida em que ele mergulhava lentamente os dedos entre o clitóris e os grandes lábios do meu sexo, espalhando toda a água que expelia. Deixou-me em ponto de explosão, quando decidiu entrar em mim pelo ânus. Segurando minhas mãos, me levou à uma montanha sem direção, sucumbindo nossa existência do mundo carnal, irreal e sublime. Vi a dor excitante crescendo entre minhas pernas. Voamos juntos de braços abertos ao pular da montanha.
Vasculhou meu centro, eletrizou energias adormecidas e reacendeu o que sou o amor de mim mesma. Desatrelando almas dos nossos corpos semimortos, um dentro do outro. O galante penetrou com elegância e paciência. Percebi que enquanto entrava, consumia minha solidão acendendo meus sentidos de homem e mulher.

Olhei pra trás o tive a visão mais linda dele, ajoelhado junto a mim, profundamente dentro de mim. Enxerguei um Paraíso no limiar da submissão, um Paraíso meu. Um lugar de extremo desejo e alegria. Um estado de graça instalado, enfiado no ego, de maneira grotesca e sentimental. Senti-me penetrada pela esperança. Meu abrigo compartilhado preenchido por aquele galante animal. Conheci meu poder, um vácuo sem ar sugando aquele monumento vertical até explodir, nos tornando uma coisa só. Fundimos a um só elemento no espaço, sem tempo, sem fôlego, mas cheio de vida e amor.

Encontrei minha beleza, a beleza daquele homem. E em algum lugar meu inconsciente explode dentro de um prazer insuportável que nos fez rir e chorar juntos. Um dentro do outro.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Menina moça.


Retrato do blog http://vigiadenazare.wordpress.com/




Trezentos e noventa e oito anos da menina

A menina navegante , sabida
festeira, guerreira.
Viajante da baía do Guajará. 


Menina moça, 

mulher vigilante de pescadores
acolhedora da cobra gigante
das ruínas, dos povos Jesuítas e Tupinambás.


Vigia das histórias ocultas.

Das histórias mudas.
Do tempo indeciso. 
Dos cortejos fúnebres.
Do carnaval. 
Cidade que abraça,
acalenta ,
amamenta 
e ensina que vida é batalha no universo guerreiro desde os tempos do Barão do Guajará.

Sem neuras.



 Pufavô!



Sobre o inesperado.O prazer da docência. Alunos que surpreendem.

Sexta-feira dia 3, recebi uma ligação inesperada. Da Jaína, uma aluna da 8ª série da escola da Ressaca. Quando vi o número de código 93 fiquei surpresa, mas não imaginava quem seria ou sobre o que seria. Assim que atendi, a voz do outro lado fina e de sotaque diferenciado disse: "Oi professora? Tudo bem com a senhora? Como foi a virada?". E eu : Foi ótima , mas... quem tá falando?

-" Ah, é a sua aluna da 8ª série, Jaína. Lembra? "

Ela me contou de algumas novidades dela, da festa da formatura da turma e tudo mais. E no final disse algo que me emocionou muito. " Poxa professora, sinto muita saudade da senhora. Eu sei que é difícil , mas eu queria que a senhora voltasse pra dar aula pra gente. Aprendi muita coisa boa com a senhora. Desculpa se eu fiz alguma coisa errado pra senhora, mas eu e toda nossa turma desejamos toda felicidade do mundo pra senhora e sua família. Espero que um dia a gente se encontre."

Como não se emocionar com uma menina de 14 anos falando isso?

Tenho certeza que passarão anos e anos, mas jamais irei esquecer dos meus alunos da Ressaca. Dos meus meninos guerreiros, que enfrentavam chuva e sol esperando aquele pau de arara que levava-os à escola numa distância de 30/40km de distância. Meninos que enfrentavam a roça para trabalhar e ajudar os pais no contra turno. Crianças que brincavam de pescar, para comer. Meninos que me deram aula sobre a existência humana e sobre sorrisos.

A docência me trouxe tanto aprendizado, tanta história e tanta alegria pro meu coração. Apesar de todas as dificuldades e a distância a qual me fizeram sofrer, mas fico muito feliz em ter contribuído o mínimo possível e conseguido plantar coisas boas naquela comunidade.
Ainda estou bastante ligada à Ressaca. Passo dia e noite pensando no lugar. Em como estarão as famílias, os alunos, a Rosa, a Ritinha, o Alan. 

Guardo cartinhas que me deixaram muito comovida, fotos das aulas, objetos presenteados pelos alunos, e na o último dia em que dei aula, e tenho comigo o último dia antes de vir embora, quando os alunos me levaram até a casa de uma das alunas, pra me oferecerem um bolo de despedida e ao final, me levaram na maior festa e algazarra na rua até a porta da casa em que morei. O rostinho de cada um me abraçando e pedindo pra eu ficar mais um dia... me partiu o coração.

Antes me achava incapaz de estar ao lado de crianças em sala de aula, pela dificuldade que tenho de lidar com as mesmas, mas talvez não tenho capacidade mesmo de me envolver tanto tempo com crianças, se em 5 meses que passei, cá estou com uma saudade sufocante antes irreconhecível dentro de mim. Depois da Ressaca, me deparei com um coração amolecido demais pra essa carcaça dura a que sempre me escondi. Ou talvez não seja nada disso e sim apenas um ser humano mais humano que me tornei. E talvez esse seja o ofício mais dignificador para um ser humano.

Seguidores