segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Vivência.

                                                                                                             Ressaca, 16 de setembro de 2013.

                                         
                                                                      Retrato do celular.

            Os dias têm sido cansativos e estressantes ( lidar com os meninos de 5ª à 8ª séries tem sido um sufoco pra não dizer um inferno. E eu até subestimei, na minha mentalidade tola de que os meninos da zona rural eram mais quietos e tal, mas eu mordi a língua. A coisa tá feia aqui também... Os moleques são tão endemoniados quanto os da cidade). E a minha carga horária é extrapolação, pois trabalho os três turnos, com duas turmas em cada um.
            Começo assim: acordo às sete horas, quando a arara - a Rosa - desce do canto dela em cima do quarto onde durmo, equilibrando-se sobre minha rede, por cima do mosquiteiro, sussurrando a língua dela até me acordar. Daí eu levanto, faço um carinho nela e vou banhar no chuveiro de água frriiiiia. Depois, tomo um café e vou pra aula às 7h30. Aí, 12h volto pra almoçar e descansar um pouco até 13h30 (o próximo turno) até às 18h.
          Ao final dessas tardes,quando o sol ainda não se pôs, ando uns 400 m para a beira do Rio para obter área no celular e é quando, respiro aliviada, ao mesmo tempo em que meu coração se entristece pela distância tão extensa de família e amigos. É que tenho um curto tempo, nos dias da semana (intervalo do 2º turno para o 3º turno de trabalho), consigo ouvir a voz da minha mãe, do meu namorado. É quando, algumas vezes as lágrimas resolvem se juntar ao Xingu, quando este sopra um vento frio que arrepia os pêlos da saudade enquanto toda a minha dor pesa sobre os ombros. 
            De lá consigo sentir o cheiro forte da vida que o Xingu carrega , assistindo à grandiosos espetáculos que a vida em si, proclama: gaivotas que pescam à beira do Rio ao lado de mulheres que lavam suas roupas e louças nos girais improvisados, enquanto suas crianças banham, brincam e gritam. Os casais de araras, papagaios e pássaros incontáveis declarando a liberdade. Os calangos gigantes caçando sem o menor pudor. A Ressaca assistindo ao formidável filme real. E... eu? Apenas vislumbrando a fabulosa cena que afaga e acalenta meu corpo e meus pensamentos mais distantes.
            Volto mais aliviada, em paz para o trabalho no turno da noite, na certeza de rever no outro dia, tal espetáculo e ouvir as vozes dos meus amores.
           O sofrimento tem sido diário, os dias até têm passado rápido, quando no final das noites de trabalho, mais um dia é riscado na folhinha. Mas tenho certeza que todo esse sofrimento será recompensado um dia.
            Minha mãe mandou um celular inteligente pra aliviar um pouco toda essa distancia. Agora consigo no fb e já tenho whatshap (093 99703381) , podem me add porque eu não aprendi a usar isso ainda. E registrar uns momentos legais. 
             Outra novidade é que eu voltei às correspondências por cartas, tanto aqui no blog quanto com uma grande amiga que está morando em uma comunidade há umas três ou quatro horas de mim. Não há correio, mas um rapaz que trabalha para as escolas, sempre está indo pras estradas, o Aurélio. Nosso carteiro. 

             Até mais.






sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A vida que respira.


No Xingu.

Minha imagem e semelhança.



Pelos olhos e sensibilidade de Raphael Costa. 

Oi?!

                                                                                                       Vila Ressaca, 14 de setembro de 2013.

                                               Carta de uma sobrevivente urbana. Do Xingu para o mundo,
                                                                                           especialmente aos amigos da minha capital.

              Bem, como não tive tempo de despedir-me dos mais próximos - e até dos mais longínquos - vou contar-lhes como se deu meu repentino desaparecimento, deste mundo on-line, marginal e “social”.
    Pois bem, depois de seis meses formada, desempregada, procurando rumo pra eu trabalhar, aguardando promessas e cansada de ser lisa, eis que no dia 10 de agosto de uma manhã de sábado em que o sol escaldava o asfalto, meu telefone tocou e era uma das minhas amigas - a Luma, a qual estudei na universidade da vida e acadêmica, na Vigia de Nazaré, me ligou com a seguinte proposta: “Laila, tu queres trabalhar mesmo? Arrumei uma vaga pra ti aqui pra Altamira...”. E eu , no meu desespero em sair dessa somatória dos maiores problemas sociais que o país enfrenta a séculos, respondi na maior certeza que sim. E em seguida veio uma voz mais séria e rígida do outro lado da linha: “ Tu tens certeza?” E  eu dei uma pausa curta já com receio , respondi amedrontada: “Por quê mana, qual o papo?” ...e depois de um pequeno suspiro, ela que já estava confinada há pelo menos suas semanas em uma colônia à umas 3 horas de Altamira, disse o seguinte: “Mana, é interior né?! Energia elétrica é difícil, educação precária, quadro a giz, gente muito humilde, um monte de outros problemas, né mana?!”  E eu na ânsia por um trampo o quanto antes, dei a certeza que eu queria e precisava trabalhar o quanto antes. Aí, por último perguntei se valia à pena. Ela disse que sim, afinal éramos solteiras, sem pinto pra sustentar, além da experiência que teríamos no nosso currículo, e o quanto iríamos ajudar as pessoas (até então não tínhamos experiências além dos nossos estágios obrigatórios). Foi então que decidi que eu ia nessa missão. A Luma então,  pediu pra que eu fosse comprar a passagem logo para Altamira e de lá alguém iria me levar até a Vila Ressaca - o destino o qual eu viria. E... aqui estou! Completando um mês, trabalhando de segunda a sexta, ministrando aulas de Língua Portuguesa durante três turnos, da 5º à 8ª série, ( ou do 6º ao 9º ano do ensino fundamental).
             A Ressaca é bem pequena e é uma vila do município de Senador José Porfírio. Está localizada à mais ou menos 80km da cidade de Altamira. Há duas opções para chegar até a Vila: voadeira ou carro.  Pela voadeira, são duas horas de viagem e os horários são limitados, também não tem viagens todos os dias e a passagem é 40$. Pela estrada, gasta-se uma hora e trinta minutos e o acesso somente em carros particulares, pois não há outra opção de condução. 
            O nome da comunidade se deu pelo canal encurvado em forma de "U" com um baixo nivelamento da água, que segundo os moradores antigos, é um “desvio” do Xingu que forma uma ressaca. A Vila foi inicialmente habitada por garimpeiros que vieram de outros estados ou de cidades próximas com a intenção de trabalhar por aqui. Segundo os mesmos, a Ressaca já foi mais povoada e mais agitada,  e infelizmente não é mais, pois todos os garimpos da região foram fechados e por isso grande parte da população foi embora.  Hoje, há uma média de 200 a 300 moradores. Esse trecho do rio está condenado pela hidrelétrica de Belo Monte, que vai secá-lo com a construção de um canal de 100 quilômetros, o qual criará um atalho reto entre uma ponta e a outra da Volta Grande, até chegar à boca da usina. 
            É um lugar desses bem interioranos mesmo, com aqueles quintais imensos, cheios de árvores e animais por todo canto. A energia foi uma das minhas surpresas, pois aqui somente por meio de geradores motores. As casas são bem simples, de madeira, algumas com telhas brasilite, outras são cobertas por palhas. E todas as pessoas se conhecem e são compadres e comadres umas das outras. hehehe
            Tive sorte de pelo menos ter sinal de telefone à beira do Xingu, que é onde o celular tem área e fica a uns 400m da casa que eu moro. Por isso, se algum amigo aí, tentou ligar e deu caixa postal, tá explicado o motivo. A internet idem. Mas na casa em que estou morando, tem telefone fixo. Então galera, por favor me liguem tocarenteprecisandodevocês (aos finais de semana, que é quando tenho tempo.)
            Tô alojada bem em frente da escola aonde eu trabalho, na casa da diretora, a dona Rosinele. Uma pessoa super gente fina e muito receptiva. Tenho um quarto só pra mim, e na casa moram ela, o marido dela o seu Birica e os filhos, o Jhonatan, o Alan e a Rita. E mais uns bichinhos os quais tem me deixado encantada: uma arara, um louro, três cachorros, dois gatos, um jabuti e um monte de galinhas doidas.       
             No mais, acredito que consegui explicar meu sumiço. Um grande abraço em todos e antes que eu me esqueça, tenho aprendido muito por aqui, todos os dias. Não tô feliz, mas tô sobrevivendo. Busco ficar tranquila pra não pirar, porque só eu sei das dificuldades sentidas aqui. To tentando aprender com tudo e todas as pessoas aqui. Tenho sentido muita falta de qualquer coisa em Belém. O sofrimento tem sido necessário e muito valorizado por minha pessoa, mais do que tudo.

            Vou ficando por aqui. Um cheiro forte de priprioca e até a próxima.

domingo, 11 de agosto de 2013

O meu destino eu decido.




Eis que de repente, tudo muda!

Os caminhos mais improváveis se confundem e no meio dessa confusão me desloco de um habitat moderno, grande e dinâmico, para outro canto miúdo, mudo e pacato. Muitos rumos ramificados à minha frente, desejados, ambicionados, mas em apenas um destino posso aventurar e oportunizar novos aprendizados.
O sol entrou na casa de alvenaria lajotada e expulsou-me para a piçarra e uma casa de palha.
Eis que essa carcaça agora, enfrenta um próximo ciclo, uma nova empreitada, mas a alma fica com um sorriso meio sem graça, abraçando a saudade e almejando sorte, fazendo companhia às lembranças vivas e  para olhos marejados.
O destino que eu rascunhei, chegou e tornou-se concreto nas folhas daquele livro encapado.

Agora, vou embora!


terça-feira, 6 de agosto de 2013

O primeiro lobo.


A vida me conduziu, e eu, abusada e segura de mim, entrei pela porta da frente. Aliás, entraram em mim. Romperam meu sagrado. Vim a este mundo de loucos... profana, ácida e de vez em quando sorridente. 

Foi alí no muro da praça, no canto mais soturno. Perto de algumas plantas.
Nos postamos em pé.
Encostou-me naquele muro de pedras, tão salientes, quanto ele próprio. O lugar era escuro e já passava da meia noite. O cenário era todo nosso, a rua estava deserta, um cheiro forte recendia. 

Garras grossas, suado e faminto me imprensou na mureta, agarrou minha anca e suspirou forte em minha nuca. Tinha um olhar abusado, sacana e malino que falava. Língua quente e respiração ofegante.
Assediou minhas curvas e pernas. Com os dedos, passeou por lugares jamais tocados por outras mãos que não as minhas. 

A saliva já fervilhando em desejos, sua língua acariciou meus lábios, desceu até os mamilos, abriu uma caminho melado pela barriga até chegar à fonte dos meus sonhos, estremecendo por completo o sangue e revirando meus olhos.

Encontrou meus caminhos ainda calados e eu encontrei meu 'eu' e minha sabedoria.

Enfiou-se devagar, entrando e saindo. Soprando e esfregando. Rebolando... partilhou de seu belo néctar, uivando sobre mim.

Me comeu alí mesmo, no muro, com uma força que me fez esquecer de qualquer energia em meu corpo.
Foi a primeira boca. A mais doce e mais louca. 
A boca de um macho bonito, forte, viril que não lembro o nome. Mas prefiro lembrar que se assemelhava a um lobo.

Meu primeiro lobo.



quarta-feira, 31 de julho de 2013

Antes que uma lágrima caia


Macapá. Praia do Araxá. -1990


"Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás."

Cazuza / Frejat

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Respingos teus, maus traçados nos meus.

Desce quente,
sussurra teus beijos agora, vai!

Vou beber teu medo, tua timidez.
Te deixo entrar. Não precisa bater na porta,
Veste a camisa, te deita e me engole.

Impregna teu suor aqui.

Talvez amanhã não virás,
mas teu cheiro já me fará respirar...
Daqui a sete dias, quem sabe?!.

Esquece o filme, desliga a tevê.

Vê a chuva? Deixa que me ensope
não me seque por favor,
Queira você estar
em outro instante sobrepor-se a mim!

[Talvez eu não espere!]

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Toques.

Desejo toques...
Mas não é qualquer toque.
Gosto dos dedos das palavras,
Do vento que os gestos causam.
Do sopro quente do beijo que eu mais desejei.

Gosto do abraço doce do sol, ao se pôr
Desse desejo incessante do mar despedindo-se
Da palavra pensada e jogada apenas pelo olhar
Do carinho da chuva
Da língua atrevida
Das mãos seguras
do coração palpitante, agitado com um abraço.




Haikai dos corpos.

      Calor que mela.
    Fundidos e gemidos
    Chovem por dentro.
   

É isso.


Na medida certa.

Camille - se.


<3 nbsp="">

"...acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camille Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura."

terça-feira, 23 de julho de 2013

Todo mundo tem esse momento.



"Me deixa!"

Tenho chance com a vida, talvez.



Azeda. Amarga. Malina. Toda errada. Intolerante. Bipolaridade sentimental. Furos pelo corpo. Animais. Desenhos pelo corpo. Gatos. Letras. Café. Baralho. Música. Livros. Xadrez. Bebida alcoólica. Vícios. Manias. Teimosia. Lilás. Lápis pretos para olhos. Noite. Ilícito é desigualdade social. Tudo que é proibido, não pode, faz mal, mata e engorda. Falta momentânea de memória e de léxico e auto-depreciação. Desorganização. Três qualidades. No máximo. Todos os defeitos.
Deve ter a influencia de touro com ascendência em capricórnio e lua em câncer. Só pode!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Só uma coisa a dizer.

A Gregório de Matos Perguntaram: 


- Que tipo de pessoa dá medo?

O sábio poeta respondeu: 

- "As que falam demasiadamente em nome de Deus, que Deus disse isso, aquilo ... e é incrível que Deus nas bocas dos abençoados nunca diz que o homem é bom! Dá vontade de ser bom e ter a sensação de que isso não vem de Deus. Dá vontade de ir à Igreja ... mas o Deus que falam tanto não gosta de mim! "



Do livro Poemas e análises de Gregório de Matos de Letícia Malard. Editora autêntica.


Sou fã!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Paciência e parceria.




Alguém que nos ama de verdade, não vai ligar se dormimos em meio à uma conversa na madrugada,

se mudamos de assunto repentinamente,

ou pedirmos explicações sobre casos antigos e objetos desconhecidos que encontramos no quarto do parceiro (a).

Não vai ligar, mas vai responder ...

quando exigirmos esclarecimentos sobre alguém que liga depois da meia noite para o parceiro (a) enquanto está 

ao nosso lado. E depois de tudo, ainda sim,

vai fazer questão de deitar juntinho pra ouvir o nosso coração.



Não é legal?! 

=D

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O gato e o escuro. (Mia Couto)


Porque eu tô adorando os textos deste autor e porque eu amo gatos.


"Vejam, meus filhos, o gatinho preto, sentado no cimo desta história.
Pois ele nem sempre foi dessa cor.

Conta a mãe dele que, antes, tinha sido amarelo, às malhas e às pintas.
Todos lhe chamavam o Pintalgato.

Diz-se que ficou desta aparência, em totalidade negra, por motivo de um susto.
Vou aqui contar como aconteceu essa trespassagem de claro para escuro.
O caso, vos digo, não é nada claro.

Aconteceu assim:
o gatinho gostava de passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite.
Faz de conta o pôr do Sol fosse um muro.
Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente.
A mãe se afligia e pedia:
- Nunca atravesse a luz para o lado de lá.

Essa era a aflição dela, que o seu menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava consentindo.

Mas fingia obediência.

Porque o Pintalgato chegava ao poente e espreitava o lado de lá.
Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.

Certa vez, inspirou coragem e passou uma perna para o lado de lá, onde a noite se enrosca a dormir.

Foi ganhando mais confiança e, de cada vez, se adentrou um bocadinho.

Até que a metade completa dele já passara a fronteira, para além do limite.

Quando regressava de sua desobediência, olhou as patas dianteiras e se assustou.

Estavam pretas, mais que breu.

Escondeu-se num canto, mais enrolado que o pangolim.
Não queria ser visto em flagrante escuridão.

Mesmo assim, no dia seguinte, ele insistiu na brincadeira.
E passou mesmo todo inteiro para o lado de além da claridade.
À medida que avançava seu coração tiquetaqueava.
Temia o castigo. Fechou os olhos e andou assim, sobrancelhado, noite adentro. Andou, andou, atravessando a imensa noitidão.

Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersianar os olhos. Olhou o corpo e viu que já nem a si se via. Que aconteceu? Virara cego?
Por que razão o mundo se embrulhava num pano preto?

Chorou.
Chorou.
E chorou.

Pensava que nunca mais regressaria ao seu original formato.
Foi então que ouviu uma voz dizendo:
- Não chore, gatinho.
- Quem é?
- Sou eu, o escuro. Eu é que devia chorar porque olho tudo e não vejo nada.

Sim, o escuro, coitado. Que vida a dele, sempre afastado da luz!
Não era de sentir pena? Por exemplo, ele se entristecia de não enxergar os lindos olhos do bichano. Nem os seus mesmo ele distinguia, olhos pretos em corpo negro. Nada, nem a cauda nem o arco tenso das costas. Nada sobrava de sua anterior gateza.
E o escuro, triste, desabou em lágrimas.

Estava-se naquele desfile de queixas quando se aproximou uma grande gata. Er a mãe do gato desobediente. O gatinho Pintalgato se arredou, receoso que a mãe lhe trouxesse um castigo. Mas a mãe estava ocupada em consolar o escuro. E lhe disse:
- Pois eu dou licença a teus olhos:
  fiquem verdes, tão verdes que amarelos.

E os olhos do escuro de amarelaram. E se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto.
O escuro ainda chorava:
- Sou feio. Não há quem goste de mim.
- Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.
- Então porque não figuro nem no arco-íris?
- Você figura no meu arco-íris.
- Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.
- Os meninos não sabem que o escuro só existe é dentro de nós.
- Não entendo, Dona Gata.
- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?
- Não estou claro, Dona Gata.
- Não é você que me te medo. Somos nós que enchemos o escuro com nosso medos.

A mãe gata sorriu bondades, ronronou ternuras, esfregou carinho no corpo do escuro.
E foram carícias que ela lhe dedicou, muitas e tantas que o escuro adormeceu. Quando despertou viu que as suas costas estavam das cores todas da luz.
Metade do seu corpo brilhava, arco-iriscando. Afinal?
O espanto ainda o abraçava quando escutou a voz da gata grande:

- Você quer ser meu filho?

O escuro se encolheu, ataratonto.
Filho?
Mas ele nem chegava a ser coisa alguma, nem sequer antecoisa.
- Como posso ser seu filho se eu nem sou gato?
- E quem lhe disse que não é?
E o escuro sacudiu o corpo e sentiu a cauda, serpenteando o espaço. Esticou a perna e viu brilhar as unhas, disparadas como repentinas lâminas.
O Pintalgato até se arrepiou, vendo um irmão tão recente.

- Mas, mãe:
  sou irmão disso aí?
- Duvida, Pintalgatito?
  Pois vou-lhe provar que sou mãe dos dois.
  Olhe bem para os meus olhos e verá.

Pintalgato fitou o fundo dos olhos da sua mãe, como se se debruçasse num poço escuro. De rompante, quase se derrubou, lhe surgiu como que um relâmpago atravessando a noite.

Pintalgato acordou, todo estremolhado, e viu que, afinal, tudo tinha sido um sonho. Chamou pela mãe. Ela se aproximou e ele notou seus olhos, viu uma estranheza nunca antes reparada. Quando olhava o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam encheram de escuro. Como se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas.
Ante a luz, porém, seus olhos todos se amarelavam, claros e luminosos, salvo uma estreitinha fenda preta.

Então, o gatinho Pintalgato espreitou nessa fenda escura como se vislumbrasse o abismo.
Por detrás dessa fenda o que é que ele viu?
Adivinham?
Pois ele viu um gato preto, enroscado do outro lado do mundo. "



Lindo né?


Apaixonei!


Novos planos: nova Vivência.


As coisas boas quando são inesperadas , são mais bonitas e arrancam sorrisos mais intensos.
Daí que este edital abriu e me inscrevi em maio, sem pretensões, e sem esperanças de vir a ser chamada. E o resultado saiu segunda-feira. Olha que felicidade.

A Casa Fora do Eixo é uma rede nacional de coletivos atuantes na área da cultura, e que busca integrar o conhecimento teórico e prático, tornando orgânicas as ações do aprender, ensinar e construir. Em Belém, a Casa situa-se alí na Aristides Lobo, entre 1 de Março e Padre Prudêncio, 292. O edital ao
qual me inscrevi, é para a vivência de três meses. Eu e mais quatro pessoas fomos selecionados e estaremos
 atuando junto a este coletivo buscando melhorar as formas de expressão artísticas da cena desta cidade. 


Aguardem. 

=D

terça-feira, 16 de julho de 2013

A noite dos sonhos.

Setenta e quatro anos, sete filhas, dezessete netos, cinco bisnetos e um mundo inteiro de histórias e lençóis.
Casada por 10 anos, separou-se por obrigações que não lhes agradavam.
Apanhava do marido enquanto sangrava por dentro. Sofria e não mais sorria. Despedaçava-se não mais vivia... Morria!

Um dia, acordou disposta a sumir e livrar-se de todo mal. Amém!

Olhou para si, para o espelho. Penteou os cabelos curtos esbranquiçados, colocou-lhe uns brincos de pérolas há tempos guardados. Passou um batom vermelho nos lábios murchos, quase sem vida. Pôs um vestido roxo e embriagou-se na noite e nos olhos de seu espelho. Saiu sem olhar para o passado.
Subiu no primeiro ônibus e parou na primeira festa.

No pop saudade, adentrou.
Foi direto ao balcão e pediu um balde.
Não demorou muito, se aproximou um senhor aparentando 40 anos  e com tom de deboche perguntou se a tia era nova alí. Ela disse que não, era puta velha no mundo, e estava alí para tirar uns atrasos que o tempo lhe causou.

                       A elegância viva, saiu sorrindo para o meio do salão, pronta pra arrasar na noite.

Daí veio a primeira dança, a segunda... Os dançarinos... O álcool subindo-lhe a cabeça...
O banheiro feminino...
O primeiro, o segundo, o terceiro pau duro...

Corpos que se enlaçavam em fogo adormecido. Sedentos, famintos.  Devorada à seco pela frente, por trás, por cima e por baixo.
Cavalgou, esfregou-se, sentou, enroscou-se naqueles animais erectos que lhe invadiam a felicidade no presente de emoções que há tempos não sentia.

Lambia ferozmente todas as extremidades e caminhos profundos de seus parceiros. Provou do sangue e da pureza do viril. Mordeu, mastigou, sugou cada falo saliente como se fosse o último.
Sem escrúpulos e educação, foi comida com as mãos, pés, língua...
Sujou a parede, as pernas, a face, sanou as lembranças ruins do passado.

Sentou no vaso, com o sorriso no rosto, quieta
Muda. Ausente de si.
Sozinha.

Sumiu.

Nunca mais voltou ao passado de lágrimas ou ao futuro de amores.
Dormiu um sonho de gozo profundo e eterno.








Desejos de outrora.

Que o vento me leve pra bem longe dos pensamentos ruins.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

É tempo de melhorias, porque a luta já tá rolando .

  [...]
                        Tapuios da minha terra
                        Caboclos do meu Pará
                        Tão ruim quanto uma guerra
                        É viver ao “Deus dará”
                        Em uma paz mentirosa
                        Que deve ter outro nome
                        Porque é sempre enganosa
                        A paz do povo com fome”.

 Nazareno Tourinho


terça-feira, 2 de julho de 2013

Lá fora, dias de luta, eu sei!

Mas aqui dentro, a força que pulsa o coração

d e s a l i n h a          o            t e m p o
       comove                            a alma
Que contamina         o corpo

Adoeço com um desânimo que parece incurável.


Tenho mania de olhar para dentro de mim.

sábado, 29 de junho de 2013

Tudo se vai.

Seis horas da manhã de um dia comum a gente acorda e vê que as coisas amanhecem sem direção. Não fazem sentido e eu apenas respiro.
A sensação é de que tudo de repente passou como num piscar de olhos, quando até ontem eu fazia a 7ª série vestindo roupas estranhas, usando allstar riscado e usava gorro de lã.  Brincava de jogar bolinha de papel dentro da sala de aula e ouvia uns rock's de criança e me encantava com uns cantores pop's que não diziam nada. 
E até ontem eu tive o meu primeiro paquerinha, ele era um pouquinho mais alto que eu , olhos castanhos e era meu vizinho e brincávamos muito de xadrez casinha, mas eu era muito bestinha e não tinha coragem de me declarar. Nunca pensei que iria perder as primeiras amizades que fiz na vida. E até ontem eu não tinha um computador que dirá um e-mail, facebook e muito menos um blog. Só tinha um celular 'tijolão' que só tinha a função de ligar e receber ligações, mensagem e o joguinho da cobrinha. 
Ate um dia desses eu ainda saia com minha avó pra comprar frutas , brinquedos, material escolar 'lá em baixo' (ver-o-peso) e como eu adorava. 
Até ontem dormia as 21h e acordava sete horas da manhã e chorava pra não ir pra aula. por um momento eu pensei ter esquecido isso tudo, lembrei de várias coisas que apenas resumi e não foi nem a metade , hoje eu vejo como eu curti aquela época (TEMPOS BONS).
As coisas da vida passam e pouco percebemos do quanto passou. É que hoje, descobri umas rugas abaixo dos olhos. 



sábado, 15 de junho de 2013

Na vida e na arte.

Sou palavra morta nos dias que já se foram.
Eterna memória parada nos muros e nas estradas...
de mania demarcada com chuva.
Marca ausentada do sol e acobertada pela lua. 
Cheia de urgências,
 impaciente ,
imatura,
nula.
E Livre.




Seguidores